Crescimento pessoal

06/03/2019 08h00

Reflexões para uma vida mais feliz

O Nosso Bem Estar comemora o Dia Internacional da Felicidade conversando com exclusividade com o filósofo Mario Sergio Cortella e o psicólogo israelense Tal Ben-Sharar, que revelam as suas ideias sobre este tão desejado estado.

Por Filipe Marcel

Nosso Bem Estar
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O Nosso Bem Estar comemora o Dia Internacional da Felicidade

O Dia Mundial da Felicidade é celebrado todos os anos, no dia 20 de março, e tem como objetivo mostrar os efeitos transformadores desse sentimento, servindo para alertar também para os impactos negativos que os conflitos, guerras e demais comportamentos que colocam a paz em risco causam no bem-estar das pessoas. A comemoração foi sugerida pelo Butão, que em vez de adotar como estatística oficial o Produto Interno Bruto (PIB), analisa a “Felicidade Nacional Bruta” desde 1972. Essa ação contabiliza os aspectos psicológicos, culturais, ambientais e espirituais dos seus cidadãos. Em 2012, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou a data para inspirar, mobilizar e promover um movimento global em torno da felicidade. Mais de 190 países reconheceram que é necessário promover um ambiente saudável e igualitário, garantindo o crescimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental, para tornar as pessoas mais felizes.

Diretrizes à parte, a felicidade tem sido analisada há séculos por grandes personalidades como Sócrates, Confúcio e até Buda. Muitos deles reconheceram esse sentimento como um objetivo humano fundamental. Para Aristóteles, ser feliz é o maior desejo dos ser humano e, justamente por isso, é necessário exercitarmos constantemente o que temos de melhor para alcançá-lo. Segundo o filósofo, devemos ainda ter um bom “daimon”, ou boa sorte, para alcançar a alegria em nossas vidas. Epicuro, outro pensador grego, acreditava que a felicidade provinha somente do mundo espiritual. Ele afirmava que não devemos trabalhar para adquirir bens materiais, mas por amor pelo que fazemos, sendo esta a verdadeira fonte de alegria e contentamento.

Nietzsche, por sua vez, reforçava que viver pacificamente e sem qualquer preocupação é para pessoas que não valorizam a vida. Para ele, sentir-se bem graças às circunstâncias favoráveis ou dependendo dos sinais de boa sorte não é felicidade de fato. Em vez disso, a alegria deve ser utilizada como força vital contra todos os obstáculos que surgem. O filósofo alemão defendia que, ser feliz, é ser capaz de experimentar essa energia de superação, criando novas formas de viver.

Filósofos modernos como José Ortega e Gasset, reforçam a tese de que todos os seres humanos têm o desejo e também o potencial para ser feliz. Isto quer dizer que, se a pessoa conseguir construir sua vida de acordo com os seus desejos, ela tem mais chances de ser feliz. Slavoj Zizek, filósofo esloveno, por sua vez, alerta que é preciso cuidado para não moldar essa satisfação a partir do consumismo, isto é, as pessoas se enganam ao acreditarem que, se alcançarem algo melhor, como comprar uma casa, ou um carro, por exemplo, poderão ser mais felizes.

Na tentativa de descobrir a origem desse sentimento intrínseco do ser humano, o Nosso Bem Estar, pioneiro em comemorar e realizar eventos ligados à felicidade no dia 20 de março, conversou com dois dos maiores pensadores contemporâneos, o filósofo Mario Sergio Cortella e o renomado “professor de felicidade”, o israelense Tal Ben-Shahar, que formularam, com exclusividade, algumas maneiras de conseguirmos aproveitar o máximo dessa jornada.

Cortella é um dos mais proeminentes filósofos brasileiros, além de professor, conferencista e escritor, autor de 38 livros, entre eles “Qual é a tua obra?” (Ed. Vozes) e ”Por que fazemos o que fazemos?” (Ed. Planeta). Na opinião dele, a felicidade é uma vibração intensa, ainda que momentânea. Ela faz valer querer continuar vivo. No entanto, ela não é algo que acontece o tempo todo, pois somente temos a noção de sua existência pela falta que sentimos dela, ou seja, nós só sentimos alegria porque ela não é contínua. “O que me deixa mais feliz é partilhar do afeto, a relevância das tarefas e a persistência contra as turbulências”, resume ele. Quando questionado sobre o que nos impulsiona nessa busca por felicidade, Cortella é enfático: “Para algumas pessoas, a ausência daquilo que também importa, como a felicidade, é razão para que essa lacuna deixe de existir. Já para outras pessoas, a felicidade acalma a letargia que resulta em desistência”, reflete.

Se Cortella acredita que as pessoas religiosas são mais felizes? “Uma parte delas é mais feliz, contudo, muitas delas comportam uma religião que tem o sofrimento inútil e o desespero cotidiano como fonte de consolo”, afirma. Esse, segundo ele, é um grande erro. Ao analisar a lista de países mais felizes, que incluem países nórdicos como Noruega e Dinamarca logo nas primeiras posições, Cortella diz que as condições de vida em comunidades reduzidas e com mecanismos de cuidado recíproco fazem com que as pessoas usufruam mais desse sentimento de contentamento. “O cidadão só deve escolher um governo que o represente se for para fazer exatamente isso por ele ou, do contrário, para que serve o governo?”, questiona. O filósofo aproveita para mandar um recado para aquelas pessoas que sentem medo de ser feliz: “Talvez [essa pessoa] não tenha entendido o que é felicidade e nem que ela não está em um ponto futuro”, destaca o filósofo, finalizando com a sua fórmula predileta, uma clássica da filosofia: felicidade = realidade - expectativa.

O psicólogo israelense Tal Ben­-Shahar ficou conhecido como “professor de felicidade” depois que começou a ensinar as pessoas como ser feliz, no curso que ministrou em Harvard – o mais concorrido da história da universidade norte-americana. Ben-Shahar, que esteve no Brasil no final do ano passado, é autor de best-sellers como “Seja Mais Feliz” (Ed. Saraiva), traduzido para mais de 30 idiomas. Atualmente, ele se dedica à palestras sobre a ciência da felicidade e sobre psicologia positiva. Assim como Cortella, ele refletiu sobre o conceito de felicidade, dizendo enxergar esse sentimento como uma soma de bem-estar nos níveis espiritual, físico, intelectual, relacional e emocional.

“Felicidade é encontrar um senso de propósito espiritual, levando a um estilo de vida saudável, aprendizado e curiosidade, além de encontrar boas amizades e lidar com emoções dolorosas e, claro, sentir prazer. Não precisamos estar prosperando em cada uma das áreas, mas a introdução de mudanças em uma ou mais dessas dimensões afetará positivamente nossa felicidade geral”, enfatiza Ben-Sharar.

Quando questionado sobre o que torna o seu dia mais feliz, o professor de felicidade diz que é “passar tempo com a família e amigos, escrevendo e ensinando, fazendo yoga e exercícios”. Se as pessoas religiosas são mais felizes do que as pessoas não religiosas?  “Não significa que não haja pessoas seculares que sejam extremamente felizes e pessoas religiosas que sejam infelizes, mas, no geral a religião parece contribuir para o bem-estar. Uma das razões para isso é que as pessoas religiosas experimentam a espiritualidade, que é importante para a felicidade. No entanto, uma pessoa secular também pode experimentar a espiritualidade. Uma das definições de espiritualidade é encontrar um sentido de significado em algo. Um banqueiro de investimento que encontra sentido em seu trabalho, que está nele pelas razões certas, leva a uma vida mais espiritual e satisfatória do que um monge que está em seu campo pelas razões erradas”, compara.

“As pessoas religiosas são, geralmente, mais felizes, pois possuem uma comunidade da qual fazem parte, e isso é um componente importante da felicidade. É claro que também é possível que pessoas não religiosas façam parte de uma comunidade, mas muitas vezes precisam fazer mais esforços para encontrar as pessoas com as quais possam se conectar”, acrescenta o escritor.

Ao analisar os países mais felizes, de acordo com o  World Happiness Report, um relatório anual feito pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU que mede o índice de felicidade de 156 países com base em seis pilares: renda, liberdade, confiança, expectativa de vida, generosidade e apoio social, começando com a Finlândia, que apareceu em primeiro lugar no ranking do ano passado, Ben-Sharar destaca que a característica comum entre os países mais felizes do mundo é o foco nos relacionamentos. “Países onde as pessoas investem muito em seus relacionamentos são mais felizes. Por exemplo, Finlândia, Dinamarca, Israel, Colômbia e Austrália desfrutam de altos níveis de bem-estar por causa de suas relações de valores culturais. No caso do Brasil, os relacionamentos virtuais estão, infelizmente, substituindo relacionamentos reais. E mil amigos nas mídias sociais não são substitutos do amigo que interagimos cara a cara”. Para ele, a chave para aumentar a felicidade, principalmente em nível nacional, está na educação. “Assim como as escolas ensinam matemática e história, elas deveriam ensinar a ciência da felicidade”, brinca.

 

As dicas de Tal Ben-Sharar, o professor de felicidade

Lição 1: Dê a si mesmo permissão para ser humano. Quando aceitamos emoções como medo, tristeza ou ansiedade é mais provável que as superemos. Rejeitar nossas emoções, positivas ou negativas, leva à frustração e à infelicidade. Somos uma cultura obcecada pelo prazer e acreditamos que uma vida digna é a ausência de desconforto. Quando aceitamos nossos sentimentos e nos damos a permissão para sermos humanos e até vivenciamos emoções dolorosas, nos abrimos também às emoções positivas.

Lição 2: Felicidade está na mistura de prazer com significado. Seja no trabalho ou em casa, o objetivo é se envolver em atividades que sejam pessoalmente significativas e agradáveis. Quando isso não for viável, assegure-se de ter impulsionadores da felicidade - momentos ao longo da semana que lhe proporcionem prazer e significado. Pesquisas mostram que uma hora ou duas de uma experiência significativa e prazerosa podem afetar a qualidade de um dia inteiro ou, até  mesmo, mesmo de uma semana inteira.

Lição 3: Tenha em mente que a felicidade depende, principalmente, de nosso estado de espírito, não de nosso status ou do estado de nossa conta bancária. Excluindo as circunstâncias extremas, nosso nível de bem-estar é determinado pelo que escolhemos focar e por nossa interpretação dos eventos externos. Por exemplo, nos concentramos na parte vazia ou na parte cheia do copo com metade de água? Consideramos os fracassos como catástrofes ou os vemos como oportunidades de aprendizado?

Lição 4: Simplifique! Geralmente estamos ocupados demais, tentando espremer mais e mais atividades em menos e menos tempo. A quantidade influencia a qualidade e comprometemos nossa felicidade tentando fazer muito. Saber quando dizer "não" aos outros geralmente significa dizer "sim" para nós mesmos.

Lição 5: Lembre-se da conexão mente-corpo. O que fazemos - ou não fazemos - com nossos corpos influencia nossa mente. O exercício regular, o sono adequado e hábitos alimentares saudáveis ​​levam à saúde física e mental.

Lição 6: Expresse gratidão, sempre que possível. Nós muitas vezes tomamos nossas vidas como garantidas. Aprenda a apreciar e saborear as coisas maravilhosas da vida, das pessoas à comida, da natureza a um sorriso.

Lição 7: Priorize relacionamentos. A quantidade de felicidade que sentimos está ligada ao tempo que passamos com pessoas que gostamos e que se preocupam conosco. A fonte mais importante de felicidade pode ser a pessoa sentada ao seu lado. Aprecie e saboreie o tempo que passa junto.

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