Saúde Integral

04/10/2019 08h00

Boa comida é Vida!

Em homenagem ao Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, o Jornal Nosso Bem Estar conversou com o médico Alberto Peribanez, autor do livro “Lugar de Médico é na Cozinha”, que falou, com exclusividade, sobre e a importância de tudo que vai à nossa mesa.

Por Filipe Marcel

Nosso Bem Estar
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Boa comida é vida!

Você sabia que mais de 800 milhões de pessoas não têm acesso a uma alimentação saudável, em qualidade e quantidade suficientes, para suprir suas necessidades básicas diárias? No Dia Mundial da Alimentação, comemorado no dia 16 de outubro, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) tentou ir além, propondo uma reflexão ainda mais profunda a respeito do quadro atual da alimentação mundial.

Além de tentar conter o avanço da fome no mundo, é necessário falar também sobre o que é uma alimentação saudável e como ela pode se tornar realmente acessível para todos. Pensando nisso, o Jornal Nosso Bem Estar procurou o Dr. Alberto Peribanez Gonzalez, um dos nomes mais importantes quando o assunto é comida, para refletirmos sobre a importância da nutrição para o funcionamento do corpo humano, além de compartilhar experiências na restauração da saúde pela alimentação natural.

Autor dos livros “Lugar de médico é na cozinha” e “Cirurgia verde”, o médico Alberto Peribanez Gonzalez é referência no Brasil quando o assunto é alimentação viva, uma vertente do vegetarianismo que defende o consumo de alimentos crus ou cozidos a baixas temperaturas, preservando as fibras, enzimas e nutrientes dos vegetais. A alimentação viva é parte de um conceito mais amplo com que Gonzalez oferece em suas consultas, entre eles da alimentação baseada em plantas, que corta o consumo de carnes, laticínios e produtos industrializados em geral.

A fórmula, vale anotar, é bastante simples: o cru prevalece para as folhas e hortaliças em geral (berinjela, abobrinha, brócolis, couve-flor). Castanhas também se comem cruas, podendo ser feitos leites a partir delas. Já os cozidos ficam para os grãos e as raízes como o arroz, batata e mandioca. Há, ainda, o cozimento químico, feito com limão, que ajuda no amolecimento das fibras, e o osmótico, feito com sal. Eles também poupam os nutrientes de valor biológico.

A partir das receitas que vem compartilhando nos últimos anos, Peribanez conseguiu demonstrar como os hábitos de vida podem ativar ou desativar os genes (epigenética) de uma pessoa. Além disso, ele avaliou o aumento de doenças degenerativas a partir da comida, o papel dos micro-organismos no processo digestivo e as consequências do uso indiscriminado de antibióticos. O médico também destacou a importância da respiração e sua relação com a alimentação e trouxe inúmeras reflexões sobre probióticos e prebióticos, vícios e compulsões por comida, açúcar, entre outros temas.

Tudo isso tem servido como base para os tratamentos oferecidos aos pacientes dele, que se apoiam nessa dieta plant based para combater doenças como diabetes, hipertensão e distúrbios cardiovasculares, além de colaborar para uma melhor saúde e qualidade de vida de maneira geral. A alimentação viva e a baseada em plantas se adaptam a diversos padrões. Segundo o médico, é possível ajustar perfeitamente ao perfil do macrobiótico, de quem ainda consome carne, de quem come só peixe, possibilitando montar uma rotina saudável de acordo com cada pessoa.

Peribanez é médico cirurgião formado pela Universidade de Brasília, possui mestrado e doutorado pelo Instituto de Pesquisa Cirúrgica em Munique, na Alemanha, e atualmente integra o corpo docente do curso de pós-graduação em Bases da Medicina Integrativa do Instituto Israelita em Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Prestes a lançar um novo livro, agora pela Editora Planeta, e iniciar um novo curso online, ele conversou, com exclusividade, com o NBE.

Nosso Bem Estar - Quais hábitos deveríamos cortar da nossa rotina alimentar?

Alberto Peribanez Gonzalez - Eu já estenderia esta resposta na direção de hábitos alimentares e também de vida. Não se pode mais dissociar uma alimentação saudável de uma prática constante de exercícios físicos e trabalhos para limpeza da mente e atenção plena.

NBE – Existe algum alimento que seja realmente prejudicial à saúde?

APG - Sem dúvida os alimentos mais danosos para a saúde humana, quando são um hábito, são as gorduras animais, incluindo laticínios, açúcar, gorduras hidrogenadas, pão branco e alimentos industrializados e processados

NBE – E que tipo de alimentos o senhor indica para nos tornarmos mais saudáveis?

APG - Independente do seu hábito alimentar neste momento, você pode e deve dar início a um padrão alimentar que seja composto de, pelo menos, 70% de vegetais integrais, carboidratos complexos, gorduras vegetais naturais e fibras.

NBE - Desde o lançamento de "Lugar de Médico é na Cozinha", quais mudanças você acompanhou a partir da ampla divulgação da alimentação viva, especialmente no Brasil?

APG - O que posso dizer é que a mudança tem sido para melhor, sempre. A proposta veio ganhando corpo, passou pela mão de muita gente nova e agora está cada vez mais difundida. Eu mesmo me sinto honrado, pois sei que muitas pessoas que hoje também tem destaque nesta área passaram por nossas oficinas e cursos.

NBE - Como você avalia as dietas que são difundidas hoje? O que mais chama a sua atenção?

APG - O que mais me chama atenção é a enorme variação de dietas apresentadas e, muitas vezes, com estilos diametralmente opostos na composição de carboidratos, gorduras e proteínas animais. É como se existisse um cardápio disponível para que alguém adote uma alimentação específica.  Isso poderia ser até bom, pois respeitaria a individualidade biológica das pessoas, mas o problema está no fato de existirem algumas dietas, particularmente, ruins para a saúde humana.

NBE – Falando especificamente da Alimentação Viva, quais são os benefícios de uma alimentação que prioriza os alimentos crus?

APG – O principal benefício é o aproveitamento completo dos elementos denominados “fitoquímicos”, que são substâncias biológicas encontradas em frutas, folhas, sementes e raízes, ou seja, todas as partes do reino vegetal.  Estes fitoquímicos tem efeitos chave sobre o metabolismo humano e sobre a proteção de diferentes tecidos e órgãos. O resveratrol, por exemplo, é uma substância produzida pelas frutas ou raízes com o efeito antifúngico. Quando entra pela dieta em nossos corpos, ela terá efeitos protetores cardiovasculares e, até mesmo, na prevenção do câncer. Quando se aplica a temperatura alta nesses alimentos, perdemos grande quantidade destes valiosos polifenóis.

NBE – O que podemos falar dos desafios que a pessoa terá de superar diariamente ao adotar essa forma de alimentação?

APG – Acredito que o principal desafio é o da arquitetura da cozinha.  Primeiramente, todo aquele candidato à mudança de padrão alimentar deve fazer cursos de culinária. Logo após este curso, ele perceberá que deve mudar muitas das características de cozinhar.  Seja um forno de micro-ondas ou uma peça desnecessária que esteja totalmente fora do contexto em uma cozinha, cuja culinária deve ser funcional e prioritariamente vegetal.

NBE - É difícil comer de maneira simples nos dias de hoje?

APG – Não. Na verdade isso nunca foi difícil. Pode-se comer simples hoje como se poderia comer simples algum tempo atrás.  O mais importante é uma mudança na percepção daquilo que é alimento simples. Para muitas pessoas, um pão com manteiga e queijo é algo simples. Na minha concepção, este tipo de alimento traz malefícios para a saúde.  Portanto, é importante que a percepção das pessoas mude, para encontrar, nas frutas e em alimentos simples da natureza, a escolha pela simplicidade.

NBE – Esta é a ideia por trás do livro "Cirurgia Verde"?

APG - Este livro sintetiza o que estamos fazendo há 14 anos, a partir do curso denominado "Bases Fisiológicas da Terapêutica Natural". Todas essas bases fisiológicas surgem da prática cotidiana de atividade física, da meditação e de uma alimentação baseada em plantas. Ou seja, é uma prática completa de mudanças de hábitos de vida.

NBE - Que exemplos podemos trazer de outros países, em se tratando de consumo e alimentação consciente?

APG - O país líder na alimentação consciente ainda é os Estados Unidos, os mesmos que criaram a pior alimentação do planeta.  Mas todos os países europeus, em geral, estão bastante avançados nesta direção, incluindo práticas de agricultura ecológica e orgânica.

NBE - E quais países você acha que não deveríamos copiar, mas lamentavelmente copiamos?

APG - Não é mais questão de copiar, mas acredito que é necessária uma revisão muito imediata do padrão de alimentação de nós mesmos, brasileiros. O que se aproxima em termos de epidemia de doenças crônicas é mais do que grave para a saúde pública brasileira.

Concluindo, como nos compartilhou Peribanez, uma boa alimentação, somada a um estilo de vida saudável, com prática regular de exercícios físicos e atenção também à saúde mental são a chave para uma vida feliz e mais plena!

 

 

 

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